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  • Mikael Sampaio

Saudades do Palhares



Estamos vivendo num país acanalhado, pelos mais diversos tipos de canalhas. Em qualquer lugar do mundo, até nos paupérrimos países africanos — vivi em um deles por alguns meses —, as emergências ou calamidades provocam a solidariedade entre as pessoas. São inúmeros exemplos. Contra o terror, os taxistas de Paris transportaram as pessoas de graça. No Japão do tsunami, ninguém estocou comida para evitar que faltasse para o vizinho. Aqui, a banda atravessa o samba em qualquer situação mais grave. Não há como esquecer o desabafo do Zeca Pagodinho quando uma enchente inundou Xérem, na Baixada Fluminense, recanto de descanso e lazer do sambista. Na ocasião, os comerciantes aproveitaram a tragédia para multiplicar o preço dos galões de água potável e o valor dos panos alvejados. Sim, os panos, tão necessários para a limpeza das casas imundas de lama. Zeca, que meteu a mão na massa e foi pessoalmente ajudar os atingidos, reclamou da sordidez e ganância de quem passou a lucrar com a tragédia alheia. A situação era desumana. E esse é apenas um dos inúmeros exemplos do que acontece Brasil afora.

Agora, o movimento dos caminhoneiros trouxe à tona diversos comportamentos acanalhados e de incompetência, às vezes os dois juntos.

Foram ou não incompetência e canalhice que marcaram as decisões e indecisões dos dirigentes políticos? Faltaram liderança, arrojo, intervenções rápidas e precisas. Sobraram a política rasteira, acocorada, covarde e a sabujice.

Os caminhoneiros, que tinham lá suas razões, não perceberam que viraram massa de manobra para canalhas profissionais. À esquerda e à direita. Excrescências como esse Bolsonaro tentaram surfar na onda da revolta. Outros idiotas juramentados aproveitam para pedir uma intervenção militar, o eufemismo acanalhado para golpe. E o PT? Bem, deixe pra lá, mas ficou igual biruta em campo de pouso. Não sabia se apoiava ou condenava um movimento com contornos fascistas claríssimos.

Este é um dos problemas do partido: enxerga virtude onde há canalhice.

Mas, voltando ao ponto inicial, o desabastecimento provocado pelo movimento paredista provocou um início de caos. E qual foi a primeira atitude de comerciantes e produtores? Aumentar sem medidas os preços dos produtos. Não houve solidariedade e sobrou mau-caratismo. Tenho medo que a situação se agrave. A Federação Única dos Petroleiros prepara uma greve. Garante que é um movimento em defesa da empresa, do Brasil. Quero saber onde estava essa valente categoria quando a Petrobras era subtraída em tenebrosas transações? Durante anos, os petroleiros nada viram ou ouviram? É isso? Ou são um bando de oportunistas seletivos?

Saudades do tempo em que canalha era o Palhares, personagem do Nelson Rodrigues. Era canalha porque apenas desejava a própria cunhada. Aliás, era magro. Para o escritor, todo canalha é magro. Mas isso era literatura, ficção. Eram outros tempos.

Atualmente, somos um país refém dos canalhas.


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