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  • Mikael Sampaio

Em doadores de sangue, notificação de morte por Chagas é imprecisa


As mortes causadas por doença de Chagas podem ser maiores do que as oficialmente notificada

É o que mostra um estudo realizado no Instituto de Medicina Tropical (IMT) da USP que acaba de ser publicado como um artigo na revista internacional PLOS Neglected Tropical Diseas. De acordo com dados, entre os candidatos a doação de sangue, no período de 1996 e 2000, na Fundação Pró-Sangue-Hemocentro de São Paulo, foram registradas 159 mortes entre doadores de sangue constatados como soropositivos para a doença nos testes de triagem. Destas, somente 26 foram notificadas tendo como causa básica do óbito a doença de Chagas.

De acordo com a pesquisadora Ligia Capuani, fica clara a necessidade de melhor se notificar as causas de morte por Chagas. É comum indivíduos não saberem ser portadores da doença. São os chamados pacientes assintomáticos. Em 2008 ela deu início ao estudo que resultou em sua tese de doutorado Mortalidade entre doadores de sangue soropositivos para doença de Chagas (1996-2000) em São Paulo: um estudo de relacionamento probabilístico de dados, pelo Programa de Doutorado do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), com orientação da professora Ester Cerdeira Sabino, atual diretora do IMT.


Causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, a doença é transmitida aos humanos principalmente pelas fezes do inseto barbeiro – Foto:USP Imagens

“O processo de doação no banco de sangue compreende uma entrevista prévia. Após a coleta do material as bolsas passam por testes para várias doenças, entre elas Chagas”, conta Ligia. “É quando em alguns casos se detecta a doença.” A partir daí o paciente é notificado a retornar para ser encaminhado a um tratamento. Segundo a pesquisadora, nem sempre esses pacientes comparecem de volta para o encaminhamento.

Cruzando dados

No Banco de Sangue a pesquisa envolveu 2.842 doares soropositivos e outros 5.684 soronegativos para todas as doenças. De posse destes números, Ligia, que é formada em matemática, realizou um cruzamento com dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade do Brasil (SIM), do Ministério da Saúde, relativo ao período 2001 e 2009. “O SIM é nada mais do que o sistema que permite acesso aos atestados de óbitos e que existe desde 1975, quando o Brasil passou a ter um atestado de óbito padrão”, conta. Desde então, as informações do SIM vem se aprimorando. Entre os 5.684 pacientes soronegativos registou-se um total de 103 mortes. Assim, foi possível constatar que o risco de morte entre os soropositivos é 2,3 vezes maior em relação aos doadores soronegativos.

Das 159 mortes registradas entre os soropositivos, somente 26 constavam Chagas como causa básica. Outras 58 estavam relacionadas a doenças cardíacas. “Devemos lembrar que há doenças do coração que são relacionadas à doença de Chagas”, lembra a professora Ester Cerdeira Sabino, orientadora da pesquisa. Segundo ela, são nove as doenças do coração que estão relacionadas à Chagas: cardiomiopatia dilatada, outras hipertrofias do coração, arritmia ventricular, taquicardia ventricular, fibrilação ventricular, insuficiência cardíaca congestiva, insuficiência do ventrículo esquerdo, insuficiência cardíaca inespecífica e cardiomiogalia. “Entre os 45 óbitos com causas relacionadas a Chagas, 23 mortes não tiveram nenhuma menção à doença”, ressalta a docente. “As pessoas que morreram com a doença podem ser muito mais. Muitos não são diagnosticados e podem permanecer assintomáticas até morrer.”

Como o HIV e HPV

De acordo com a professora Ester, a doença de Chagas é tão frequente quanto o HIV (Aids) e o HPV (Human Papiloma Vírus), mas o que ocorre, na opinião dela é um “descaso”. Considerada antes uma doença rural, ela já pode atualmente ser analisada como uma doença urbana. Causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, é transmitida aos humanos principalmente pelas fezes do inseto barbeiro. O paciente é infectado quando é picado e, ao coçar, leva as fezes do inseto para dentro do ferimento.


Etapas da vida do barbeiro, transmissor da doença. O paciente é infectado quando é picado e, ao coçar, leva as fezes do inseto para dentro do ferimento – Foto:USP Imagens

Após alguns sintomas como inchaço, febre, mal estar e dor de cabeça, os sinais da infecção desaparecem e podem não voltar por décadas. Em sua segunda etapa, já na fase crônica, o paciente apresentará problemas cardíacos, neurológicos e digestivos. A professora informa ainda que a única droga para tratamento da doença é o benzonidazol. “Esta droga não é de fácil acesso a quem tem a doença. Além do mais, é sabido que o HIV e o HPV recebem mais verbas de incentivo dos órgãos governamentais para estudos e pesquisas, enquanto não há qualquer investimento para a doença de Chagas”, lamenta a docente, lembrando que até no Canadá já foram identificados pacientes com a doença.

Além da professora Ester Cerdeira e Ligia Capuani, assinam o artigo os cientistas Ana Luiza Bierrenbach, Airlane Pereira Alencar, Alfredo Mendrone Jr., João Eduardo Ferreira, Brian Custer e Antonio Luiz P. Ribeiro.

Fonte: Jornal USP


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