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  • Mikael Sampaio

Eleições 2018: O que a agropecuária de Pernambuco espera da política



Oscilações fazem parte da rotina de quem planta e cria: dedicar-se à produção rural é estar sempre às voltas com as constantes variações dos preços e das taxas de câmbio, com a ameaça de pragas e com condições climáticas nem sempre favoráveis. Não bastassem os riscos inerentes à atividade, a proximidade das eleições amplia as dúvidas sobre o futuro do País. Na segunda reportagem da série “Economia e Eleições”, examinamos como essa dose extra de incerteza tem se refletido sobre o setor cuja produção é a que mais cresce em Pernambuco: a agropecuária.

Estabilidade

O valor do Dólar é uma variável importante para a economia agrícola e dele decorre um equilíbrio delicado. Preços muito baixos da moeda americana dificultam as exportações – porque a produção brasileira se torna mais cara para os compradores estrangeiros –, enquanto preços muito altos aumentam os custos de insumos, como herbicidas e fertilizantes, e reduzem a lucratividade dos produtores.

Anos eleitorais costumam provocar volatilidade nas taxas de câmbio, percebida a cada resultado de pesquisas de intenção de voto ou a cada fato novo surgido na campanha. Porém, 2018 tem sido especialmente fértil para as variações. Em agosto, um levantamento da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) identificou que o Dólar tem oscilado maisnesta disputa do que nas três eleições passadas, e que o quadro de indefinição tende a se intensificar. “Bom para nós seria se houvesse uma estabilidade maior”, resume Jailson Lira, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Petrolina, que representa os fruticultores do Vale do São Francisco – região que, no ano passado, exportou US$ 145 milhões em mangas e uvas.

“Essa grande interrogação sobre como vai se definir a eleição do País gera muita insegurança e representa um problema para nós”, ressalta o presidente da Associação dos Fornecedores de Cana de Pernambuco (AFCP) Alexandre Lima.

O vice-presidente Administrativo da Associação Avícola de Pernambuco (Avipe), Edival Veras também demonstra preocupação com o movimento “acima do normal” nos preços da moeda estadunidense. Para ele, outro efeito indesejado do cenário político instável são os danos à imagem do Brasil no exterior. “O que a gente espera é recuperar a percepção, no âmbito internacional, de estabilidade e de qualidade da produção brasileira, porque a gente vem perdendo credibilidade e mercados”, descreve.

Segurança hídrica

Competir internacionalmente traz dificuldades adicionais para a economia rural desenvolvida em locais que experimentam condições climáticas mais severas, como é o caso de Pernambuco. “Nosso Estado tem cerca de 80% do território no Semiárido, convivendo habitualmente com a seca, e concorre com produtores dentro e fora do Brasil”, lembra o presidente da Federação da Agricultura de Pernambuco (Faepe), Pio Guerra.

O representante do setor critica a ausência de alternativas viáveis para a captação e distribuição de água para as regiões produtoras, como no projeto de transposição do Rio São Francisco – marcado por atrasos e controvérsias. O líder da entidade aponta que os poucos planos desse tipo em operação se destinam a garantir o abastecimento das áreas urbanas, mas não alcançam as zonas rurais, o que já provocou danos profundos em cadeias produtivas importantes, a exemplo da bacia leiteira do Agreste, responsável por 400 mil empregos.


A solução, no entanto, não deve vir no curto prazo. A situação fiscal dos governos – que se esforçam para manter em dia os compromissos elementares – não indica que obras públicas mais ambiciosas possam contar com recursos. A mudança desse quadro, defende Pio Guerra, passa pela condução de reformas que recuperem as contas públicas e deixem espaço para o setor público realizar investimentos. “Há que se discutir com franqueza a questão de mudar os custos da máquina estatal. Como qualquer segmento pode imaginar que vai contar com uma melhor infraestrutura hídrica, logística e de pesquisa numa situação de total penúria?”, questiona.

Infraestrutura de transportes

Não é apenas na pouca oferta de água que se percebe a falta de fôlego dos governos para executar obras públicas. As condições difíceis para o transporte de mercadorias em Pernambuco são apontadas como mais uma desvantagem na competição com a produção agropecuária de outras regiões e, na avaliação dos representantes do setor, seriam também consequência da falta de recursos disponíveis para novas alternativas de escoamento e para a conservação daquelas que já existem.

“Nossos custos com fretes são de 30% a 40% superiores aos de outros Estados”, calcula Edival Veras, da Avipe, fazendo referência ao transporte rodoviário de milho e de soja, principais insumos da avicultura. Ele identifica a necessidade de conclusão da Ferrovia Transnordestina – que convive com atrasos desde 2011 –, rede de trilhos que ligará a região agroindustrial do Piauí ao Porto de Suape, na Região Metropolitana do Recife, cruzando o Sertão Pernambucano. “Cobrar que se acelere a melhoria da infraestrutura de transportes é um dos principais temas a serem enfrentados pela Assembleia Legislativa”, sublinha Veras, lembrando que o assunto é ocasionalmente citado pelos deputados estaduais.


Jailson Lima, representante da fruticultura, reforça o pleito. Ele lembra que os negócios do Vale do São Francisco, muitos voltados principalmente às exportações, dependem do acesso facilitado aos portos, e hoje não têm alternativa a não ser o uso de caminhões. “Na greve dos caminhoneiros, a gente passou um mês inteiro em muita dificuldade”, lembra Lima, que também aponta para a necessidade de melhorar as linhas de navegação oferecidas no Porto de Suape de modo a se tornarem mais rápidas e adequadas ao transporte de itens perecíveis como as frutas. “Mais de 60% da nossa produção sai pela Bahia, onde há melhores condições de trabalhar”, contabiliza.


Estímulo à produção local

Os incentivos às diferentes economias rurais do Estado também são lembrados como estratégicos para a manutenção de bons resultados. É o caso da regulamentação da produção artesanal de queijos no Agreste, cita o presidente da Sociedade Nordestina dos Criadores, Emanuel Rocha, para quem a medida precisa ser acompanhada de outras iniciativas que ampliem, igualmente, a demanda pelo leite pernambucano – como a atração de indústrias que absorvam a produção leiteira.

Alexandre Lima, da AFCP, defende políticas de estímulo ao uso de combustíveis limpos, o que pode favorecer a cultura da cana-de-açúcar na Zona da Mata. Ele cita o programa RenovaBio, do Governo Federal, que oferece vantagens à produção e à comercialização de biocombustíveis no Brasil e deve ter início em 2020. “A expectativa de que os próximos governos concretizem essa iniciativa é a nossa esperança para o setor voltar a crescer”, pontua Lima, mencionando também o apoio oferecido nos últimos anos para que usinas de Pernambuco fossem reativadas – o que, segundo ele, tem inspirado outras regiões produtoras. “É essencial que os próximos governos mantenham os incentivos locais. Nosso setor já foi mais importante. Graças a Deus, a economia do Estado está se diversificando, mas ele continua gerando muitos empregos”, sublinha.

Por Luciano Galvão Filho

*Fotos em destaque: Tiago Queiroz/Faepe (home) e Rinaldo Marques/Arquivo Alepe (especial)


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