banner technobytes.jpeg
OTa2.jpg
LOGO MEGA.jpg
Banner Aveloz
  • Mikael Sampaio

A herança da dúvida


No dicionário, chuva é isso:

“fenômeno que resulta da condensação do vapor de água da atmosfera em pequenas gotas que, quando atingem peso suficiente, se precipitam sobre o solo”.

No Nordeste do Brasil, ela tem significado diferente. Ela é vida, é esperança, mas também é destruição, é morte. Na Zona da Mata Sul, ela é tudo isso. A chuva é uma lembrança constante de dificuldade, tristeza e perda para os mais de 1,04 milhão de pessoas afetadas pelas enchentes dos rios que cortam a região – oficialmente, 27 cidades foram incluídas pelo governo do Estado nos decretos de situação de emergências publicados no final de maio. É um drama sem data de vencimento. Sem hora para começar nem para terminar porque ele se repete.

Mãe de quatro filhos (duas meninas de 16 e 9 anos, dois meninos de 13 e 12), Janice Maria da Silva não tem profissão. Ela “se vira”, como diz, meio sem jeito, meio com culpa. Janice morava em uma casa de taipa, em Palmares, às margens do Rio Una – o “vilão” da região -, mas as chuvas derrubaram as paredes do casebre e ela teve que perambular por dois abrigos improvisados em escolas da cidade antes de “fixar” residência em uma sala de aula da Escola Estadual Maquinista Amaro Monteiro, em vias de ser inaugurada.

Janice não está só. Três meses depois, as chuvas, se não castigam no presente, açoitam a memória e a esperança de milhares de pessoas. Janice não está só: os números oficiais dizem que, em meados de agosto, a herança das enchentes no Estado são 1.027 desabrigados (os que perderam seus tetos e não tinham para onde ir) e 6.373 desalojados (os que não puderam mais ficar onde moravam mas deram um jeito de ir para a casa de parentes ou amigos). Quando os decretos foram publicados, eram 5 mil desabrigados e 27 mil desalojados. As águas baixam, os números também.

Mas isso é o que se contabiliza oficialmente. A Coordenadoria de Defesa Civil do Estado de Pernambuco (Codecipe), por meio da empresa terceirizada que foi a campo para verificar a situação das famílias vítimas da chuva, informou que contabilizou 93% das visitas previstas, chegando a 4.989 vistorias e 3.669 cadastros realizados. Ainda que o trabalho precise ser finalizado em quatro cidades, São Benedito do Sul, com 672, e Belém de Maria, com 549, são as campeãs de cadastros. O problema é que não se sabe para o que servirá esse cadastro.

Nas cidades, a dúvida ainda é certeza. De todos os lados. De quem perdeu casa, de quem perdeu móveis, de quem só salvou a vida, de quem ajuda a cuidar de quem foi vítima. Na verdade, a dúvida é o legado da chuva: ninguém sabe o que vai ser feito, ninguém sabe o que fazer quando chover forte ano que vem de novo. Pois assim foi em 2000, assim foi em 2010 e assim foi em 2017.

Para evitar esse cenário de enxurrada de perguntas, o Ministério Público de Pernambuco arregaçou mangas e bainhas e enfiou o pé na lama. Ainda nem estiado tinha, o procurador-geral de Justiça Francisco Dirceu Barros instituiu um Gabinete de Gerenciamento de Crise e convocou o coordenador da Codecipe, tenente-coronel Luiz Augusto, para explicar as providências do governo do Estado para atender aos afetados. No início de junho, Barros esteve em Palmares, onde se reuniu com os 27 prefeitos para alertar contra a possibilidade de malversação de verbas públicas por causa do decreto de emergência, que diminui a burocracia para medidas emergenciais. Ao mesmo tempo, o MPPE emitiu uma série de recomendações, em cada cidade, para criar um ambiente de legalidade na administração pública condizente com a situação em que a população vivia. A maioria dos municípios atendeu ao que os promotores recomendaram.

É este o cenário que o MPPE na Estrada foi verificar in loco. Foi ver de perto a situação das vítimas, as providências tomadas pelos prefeitos, pelo governo do Estado e pela União, os procedimentos instituídos pelos promotores. Amanhã, na segunda matéria do Especial Chuvas na Mata Sul, vamos voltar a Belém de Maria, uma das cidades mais afetadas pelas enchentes do Rio Una, onde a promotoria foi inundada e provocou o deslocamento do expediente do promotor Marcelo Tebet para a vizinha Lagoa dos Gatos. A lama já baixou, mas as dúvidas quanto ao futuro não se dissiparam.


0 comentário